Arquivo para maio 2010
Fotojornalista – Andarilho Solitário
Um assunto que me fez devanear por alguns bons minutos: profissões que necessitam de foco; com certeza são muitas, mas vale destacar médicos, atiradores de elite, esquadrão anti-bombas, profissões que necessitem de alta precisão como alguns esportistas, aviadores, fotógrafos, e tantos outros mais. Minha bagagem me faz falar do fotógrafo, mais precisamente do fotojornalista, que, se perder o foco momentaneamente, pode arruinar toda uma reportagem. Para evitar deslizes, o fotojornalista deve ser focado, objetivo e uno com o que acontece – as distrações são proibidas.
Talvez nisso resida um pouco a imagem de fotojornalista como um andarilho solitário, que entra nos mundos das pessoas, junta as informações de que precisa, e então se afasta, colocando a câmera entre ele e todo o resto. E através da câmera ele imortaliza um momento, a partir do qual o fotógrafo volta a ser um estranho, rumando com seu objeto de trabalho em mãos de volta ao seu mundo fracionado de onde saiu. Assim volta ele à redação, e deixa de lado a relação construída – se ela for solidificada, não será pelo momento do clique. O clique é irracional; ele é pensado antes - ao formar o quadro, pensar a luz, escolher o ângulo – e depois – ao, juntamente com o editor ou o repórter, escolher a(s) foto(s) a ser(em) impressa(s). O momento em que a escrita com a luz está sendo feita, salvo talvez em longas exposições, é um instante irracional de mera espera ao resultado.
Já o fotógrafo casual deve trabalhar diferente – o retratista, por exemplo, deve estabelecer o máximo de conexão com o assunto, ou seja, com o fotografado. Em fotografias de moda realizadas em estúdio, o comum é a conversa entre fotógrafo e fotografado. E, mesmo quando o espelho sobe para registrar a imagem e deixa o fotógrafo sem nada enxergar, ele exclama, como que em uma recompensa à pose dada, um elogio à imagem que ele nem ainda viu. Essa conversa durante o processo faz a diferença, pois ocasiona numa maior soltura da modelo, e numa maior confiança no seu fotógrafo, que já conseguiu belos momentos – crê ela, mesmo sem ambos terem confirmado isso.
Por mais que converse, o fotojornalista, no momento do apertar de mãos de dois presidentes de outras nações, não necessita de um tradutor, por exemplo. No fotojornalismo, o fotógrafo é que é o tradutor do instante decisivo¹. Ele deve ser preciso na sua tradução do que foi o momento mais importante de uma cobertura: ele precisa reunir os fatos em um só recorte do tempo em duas dimensões.


